Vereadores de Itatiba pedem explicação à TCI sobre melhorias não realizadas em pontos de ônibus
Representante da concessionária de transporte foi questionado na Câmara Municipal
Com o retorno total à normalidade após a fase difícil da pandemia de covid-19, os deslocamentos da população pela cidade de Itatiba já estão no nível anterior às implicações do confinamento e restrições de acesso a determinados locais. Com isso, o transporte coletivo volta a passar por questionamentos. As polêmicas em torno da concessão motivaram mais uma Sessão Extraordinária na Câmara Municipal de Itatiba, na quarta-feira (24).
O representante da empresa, Alfredo Ordine, se mostrou bastante à vontade diante dos questionamentos apresentados pelos vereadores. Como ex-integrante da Casa, que chegou a presidir, disse estar acostumado às cobranças constantes à atuação da TCI. O tema ponto de ônibus foi o mais abordado.

O atual presidente da Câmara, vereador David Bueno (Solidariedade), cobrou explicações sobre uma alteração contratual envolvendo R$ 500 mil. O edital de concessão assinado em março/2019 previa investimento de R$ 500 mil em instalação e melhorias de pontos de ônibus até março de 2024. Veio a pandemia em 2020 e os passageiros sumiram. Apenas R$ 48 mil foram gastos e faltam 32 pontos a receber cobertura.
Segundo Alfredo Ordine, o então prefeito Douglas Augusto (PPS) isentou a TCI do investimento e considerou que o dinheiro deveria ser a título de subsídio para cobrir prejuízos provocados pela pandemia. A Câmara Municipal está exigindo que seja apresentado um documento formal sobre a alteração. A TCI entende que isso deve ser cobrado da prefeitura. Para complicar, o prefeito eleito em 2020, Thomás Capeletto (PSDB) cancelou o acordo e quer a realização total do investimento.
São 251 locais de parada de ônibus na cidade, sendo 65 de alvenaria, 93 com cobertura e 87 do tipo postinho de madeira mais outros seis implantados no novo contrato. Quando da assinatura, em 2019, o custo estimado era e R$ 12,3 mil por ponto com cobertura e houve outra possibilidade apresentada pela prefeitura, ao custo de R$ 20 mil que, testada, acabou descartada.
Uma situação difícil de entender diz respeito às alterações que a TCI faz a pedido de empresas que alteram os turnos de trabalho dos empregados e solicitam que as linhas também tenham os horários modificados. Quando isso acontece, o usuário que está no meio do caminho aguardando transporte fica sem saber o que está acontecendo e reclama, com razão, da falta de transparência na prestação do serviço.
Outro ponto nebuloso surgiu quando o representante da TCI sugeriu aos vereadores a possibilidade de atendimento individualizado às queixas apresentadas, afinal o transporte é coletivo e as cobranças pretendem alcançar um denominador comum que atenda melhor o público em geral.

Tarifa
Sobre a tarifa, Alfredo Ordine afirma que o custo calculado por normas técnicas é de R$ 6,60. Atualmente existem as tarifas de passe comum a R$ 3,10; a de R$ 3,25 que é paga na catraca; a de estudante, de R$ 3,30. A diferença entre esses valores e os R$ 6,60 do valor real é subsidiada pela prefeitura. Vale lembrar que o passe do trabalhador não recebe subsídio do poder público. É pago pelas empresas na totalidade de R$ 6,60. Com isso, a TCI recebeu, em média, R$ 500 mil por mês a título de subsídio de janeiro a abril, revela Alfredo Ordine em conversa direta com o Itatiba Hoje, ao final da sessão extraordinária.

Falta de funcionários especializados
O contrato de licitação do transporte coletivo deixou lacunas que precisam ser preenchidas para dar segurança à população e às outras partes envolvidas. O representante da TCI disse não há funcionários na prefeitura com conhecimentos técnicos sólidos para discutir planilhas de custo e houve a necessidade da contratação de uma auditoria para eventuais correções. A renegociação, ou aditamento, do contrato é outro procedimento complexo. A fiscalização é feita mediante uma ferramenta virtual que permite à municipalidade acompanhar a quantidade de ônibus e de passageiros transportados nas linhas. A manutenção dos pontos é responsabilidade da concessionária.
As reclamações contra a qualidade do serviço que os cidadãos e cidadãs apresentam à prefeitura são encaminhadas para a TCI, que mantém canais próprios de comunicação com os usuários. O site da empresa (www.tcitransporte.com.br/atendimento) e o telefone 08000-552252 são apresentados como alternativas, mas quando testamos o atendimento não funcionou. Atualmente a TCI opera 19 linhas com uma frota 66 ônibus.
Conversas com usuários do transporte público no Terminal Central
O Itatiba Hoje percorreu alguns bairros para ouvir usuários do sistema de transporte coletivo capitaneado pela TCI – Transporte Coletivo de Itatiba – concessionária do serviço. Elisangela da Silva, 45, precisa da linha Engenho D’Agua para chegar ao trabalho na Rodovia das Estâncias, após o Rio Atibaia. Segundo ela, que entra às 7h no trabalho, os atrasos dos ônibus são diários e há falta de informação quanto aos motivos. Ela também reclama da falta de cobertura nos pontos de ônibus e amplia o leque de queixas quando se trata da oferta de transporte aos finais de semana. Aí a nota para a TCI é zero. Ela está nitidamente muito brava.

Já Vanessa Aparecida, 32, moradora no Parque das Nações, está mais satisfeita. Com a filhinha Gabriella de 11 meses no colo, diz que sai de casa bem cedinho, às 6h. Antes de ir para o trabalho como auxiliar de limpeza na Cleanic Ambiental tem de deixar a bebê com a mãe dela.
Resignada, Vanessa vê pontualidade no serviço prestado mas quer que a empresa coloque mais ônibus em circulação. Dá nota 7 para o atendimento.
Uma observação feita por quase todos os entrevistados é sobre a existência de apenas uma empresa atuando no setor. Juarez da Silva, paraibano de 58 anos radicado em Itatiba desde 1980, é do bairro
Luvison, trabalha como captador de imóveis e dá nota 5 para o transporte coletivo. Ele afirma que faltam ônibus nas linhas e a demora para embarcar é grande. Questionado se já apresentou reclamações à TCI, Juarez dá um sorriso e dispara: “E vai adiantar? Só tem essa empresa”.
Chega um ônibus com uma grande faixa indicando que é escolar, da TCI, e um grupo de pessoas começa a embarcar. O veículo, segundo alguns usuários, é usado para surprir a demanda. Na parte da manhã faz o transporte de alunos. No final da tarde serve passageiros no trajeto do Centro até a região do Bairro Porto Seguro-Dr. Pimenta.
Ajustes serão bem-vindos
A busca por um canal de comunicação com a TCI que funcione de verdade foi expressada em várias conversas, como no caso da passageira Maria Lucia, 42, que transita entre os bairros da Ponte e Porto Seguro. Ela sai de casa às 5h50 e aplaude a pontualidade da linha. Mas reclama que o ônibus deixa os passageiros na Igreja do Bairro da Ponte e a turma tem de subir um morro até a área onde ficam várias fábricas, ou seja, onde estão os empregos. Maria Lucia suplica para que os ônibus aumentem um pouco o trajeto para levar conforto a toda aquela gente que inicia a muitas vezes difícil jornada de trabalho. Ela garante que o pedido já foi feito diretamente ao prefeito, mas, por enquanto, nada. E tasca uma surpreendente nota 8.
O banco de madeira de um dos pontos de ônibus da Avenida Antonio Nardi, no San Francisco está encharcado com a chuva. Não existe proteção na parte de trás. A cobertura quebra um galho. É manhã de terça-feira. A jovem Débora Rodrigues, 26, quer chegar ao trabalho no Centro da cidade.
Ela explica que por ali passam quatro linhas e o deslocamento é bom nos dias úteis, mas aos finais de semana não dá para contar com um bom serviço. Um ônibus vem subindo a avenida e ela rapidamente dá nota 8 para o serviço e embarca. As ruas têm pouquíssimo movimento. A criançada já está na escola e a maior parte dos trabalhadores está a caminho ou já chegou ao destino.
Num dos pontos de ônibus na Avenida Mariano Latorre, no Condomínio Beija-Flor, um grupo de oito pessoas se agita quando o busão da linha 857-Bairro dos Pires chega. Não deu tempo para completar o bate-papo.
Uma senhora com sorriso simpático disse que o serviço deixa a desejar e entrou depressa não sem reclamar que sábado, domingo e feriado o transporte coletivo “não existe”.
Apenas um homem ficou no ponto, Luís André, que aguardava a irmã que lhe daria uma carona. Disse que tem uma chácara no Morro Azul e que durante a semana o transporte coletivo para mordores e trabalhadores do loteamento é precário e que os ônibus só entram lá no horário escolar. Fora disso, as pessoas são deixadas ali no Km 94 da Rodovia Dom Pedro I. Ainda por cima reclama que aos finais de semana só tem ônibus uma vez de manhã, de tarde e à noite. É mais um que atribui a situação à falta de concorrência.
Transporte não acompanha o crescimento
Em outra região de forte densidade populacional, o Parque Cecap, uma moradora que se identificou apenas como Jessica, 31, iria entrar no trabalho às 10h18 e estava no ponto de ônibus por volta de 9h porque se perdesse a condução desse horário o próximo a deixaria, com certeza, atrasada. Jessica elogia os motoristas da linha que nem sempre são tratados com a consideração merecida. Mas, a exemplo de tantas outras pessoas, solta farpas contra a falta de concorrência para o leva e traz de passageiros na cidade. Ela observa que a cidade está crescendo bastante com a chegada de “gente de fora” para morar aqui, instalação de empresas e que o sistema de transporte está ficando para trás.
No mesmo ponto de ônibus, na Avenida Benedito Godói de Camargo, que margeia o Núcleo Residencial Doutor Luiz de Mattos Pimenta, Gilda Godói, 70 anos, esbanja simpatia. Ela faz bicos como cuidadora de idosos e depende do transporte coletivo para os trabalhos eventuais ou para ir ao forró ou roda de pagode, mas nesses últimos casos o serviço de ônibus não ajuda muito com a precariedade aos finais de semana.
A Prefeitura de Itatiba esclareceu que o contrato de concessão em vigência foi assinado em março de 2019 com validade por 10 anos (até 2029) e possibilidade de prorrogação por mais cinco anos. Também foi estabelecido que haveria apenas uma empresa fornecendo o serviço na cidade. Interessados em conhecer com detalhes o que está em vigor podem acessar o contrato 22/2019 no Portal da Transparência da Prefeitura.
Por enquanto, permanece a queda de braço entre a Câmara Municipal e a TCI. Ainda haverá muita discussão pela frente e o caso pode desaguar na Justiça.
Por Cid Barboza – Fotos: Cid Barboza

