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Leila Bedani defende que mulheres devem ter atuação em todas as frentes da sociedade e precisam buscar seu espaço

Vereadora lembra atuações e políticas públicas voltadas ao universo feminino

A minguada representação feminina na Câmara Municipal de Itatiba (são apenas duas vereadoras entre os 17) não desanima Leila Bedani, eleita pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e que está no segundo mandato. O Itatiba Hoje foi ao gabinete dela colher opiniões e expectativas sobre a situação feminina no hostil universo machista, onde as mulheres têm enfrentamentos que não deveriam caber na realidade atual.

IH – O Dia Internacional da Mulher foi instituído pela ONU há 49 anos. O trabalho da mulher na política evoluiu o suficiente nesse tempo, principalmente na aceitação da presença feminina?

LB – A questão da mulher na política é um processo que tem de ser trabalhado diariamente, a cada minuto, um degrau a cada dia. O homem já nasceu com a política na formação. A mulher vem adquirindo isso a passos lentos. As pessoas que acompanham o trabalho da mulher entendem que é um processo sério. Não que os outros não sejam, porém a mulher fora dos atributos na política têm outras frentes de atuação, como cuidar da casa, da família. Eu costumo dizer que sem os homens não há avanço, precisamos muito deles, de sair de mãos dadas realmente. Sozinhas a gente não alcança nada, não.

IH – O homem ainda tem uma participação insuficiente na condução dos processos familiares?

LB – Isso vem desde o nosso lar, da nossa criação. De uma forma geral, os homens foram instruídos como provedores do lar. E se eles estiverem envolvidos numa campanha política, pegam o carro e saem. Nós mulheres temos que ver como está a casa, suprir as necessidades dos filhos, roupa, louça. Enfim, outras responsabilidades. O homem tem, sim, suas responsabilidades no lar, mas muito menores que as das mulheres. Vários cursos deveriam ser feitos dentro do casamento, quando nasce um filho.

Haverá o curso Mais Mulheres na Política, iniciativa do Fundo Social de Solidariedade, ministrado na Casa Rosa, explicando que para ser candidata não é só ter uma bagagem, mas entender seu processo perante a política. Queremos ensinar como entrar na vida política, que ela não deve ser apenas um número para que os partidos atinjam a cota de 30% de candidaturas femininas.

IH – Você acha que os partidos não levam muito a sério essa determinação de 30%?

LB – O meu partido leva a sério. Na eleição municipal anterior o PSDB ofereceu curso para as mulheres candidatas a vereança sobre como funciona o processo eleitoral. No geral, os partidos convidam mulheres para bater a meta de 30% e pensando nos votos que elas podem trazer para o partido, ignorando o que de fato elas podem agregar.

IH – O que te levou para a política?

LB – Eu tenho 25 anos de carreira na área pública. Quando funcionária da saúde fui candidata à CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) fui a mais votada e isso gerou possibilidades de candidatura a vereadora. Trabalhei durante 10 anos na Secretaria Municipal da Saúde. Tenho formação em Administração e sou concursada como escriturária. As minhas propostas eram bem aceitas e encampadas, sempre voltadas ao bem-estar coletivo.

IH – Qual o diferencial do pensamento feminino no universo político?

LB – Nós temos o coração de mãe, que é uma palavra doce. A gente tem o sentimento do amor, da proteção. A gente sempre pensa no próximo. Minha mãe sempre dizia desde que eu era criança e quando eu trabalhava no SUS, “Faça para os outros o que você gostaria que fizessem para nós, como parentes, como família”. Isso foi muito positivo na nossa vida. Meu pai sempre gostou muito de política, ajudava muito as pessoas, era muito conhecido aqui em Itatiba, mas nunca disputou eleições. Ajudava candidatos. Ele me incentivou bastante. Na primeira vez, não fui eleita, mas persisti e deu certo em 2017. Daquela eleição para cá, caiu de quatro para duas o número de mulheres na Câmara Municipal de Itatiba. As mulheres precisam fortalecer essa questão de mais mulheres na política.

IH – Você se sente uma vereadora respeitada na Câmara Municipal?

LB – Eu nunca parei para pensar nisso. Mas tenho feito muito pela cidade. Eu começo a trabalhar às 4h da manhã e vou até tarde. Sempre fazendo, criando coisas novas. Várias coisas funcionam hoje no município graças a projetos iniciados por nós, como cursos gratuitos disponíveis no Fundo Social de Solidariedade., grandes ações de plantio de árvores, projeto do óleo sustentável. Também abordamos questões ligadas às drogas. Participamos da criação da Casa Rosa, reinstalamos o Conselho da Mulher, que estava parado desde 2017. Dá para citar também a Rede Apoio e de Enfrentamento à Violência em que a gente trabalha criança, adolescente, idoso e mulher.

IH – A violência contra a mulher precisa ser enfrentada em vários aspectos. Há constantes apelos pelo endurecimento das leis. As famílias estão sendo chamadas a esse combate?

LB – Isso é um dos pilares que a gente trabalha. A palavra “família”. A desestruturação familiar afeta a criação, o desenvolvimento de valores positivos. Eu falo que Deus vai mandando recados e ele tem colocado muito essa questão de criança e família na minha vida. A Rede de Apoio que a gente está implantando é para isso, combater o abuso infantil, a violência doméstica, em todos os patamares. A rede tem dois representantes de cada secretaria municipal, conselho tutelar, policiais civil e militar, guarda municipal.

IH – O que mostram os números da violência contra a mulher em Itatiba?

LB – Ainda não temos números certeiros. Antes da implantação da rede, cada instância de atendimento ficava com seus dados. Agora, estamos aplicando a notificação compulsória de atendimento às vítimas de violência. Vamos ter em breve números confiáveis.

Nós somos políticas (independente de investidas ou não de mandato) e temos de apresentar metas e alcançar resultados. Sair da discussão e partir para a ação.

IH – O que você gostaria de deixar como mensagem pelo Dia Internacional da Mulher?

LB – Nós temos que conhecer o potencial que cada um tem. Todo mundo é bom em alguma coisa. Basta a gente acreditar e fazer a diferença no mundo. Não adianta a gente ver o problema e só apontar o problema. A gente tem que ir de encontro para resolver. Se todo mundo pensar que o foco é a solução e fazer os meios para que isso aconteça, com certeza o mundo será muito melhor. Dá trabalho. Isso eu posso afirmar. Mas sempre que o resultado é positivo, é muito satisfatório.

IH – Vai buscar o terceiro mandato?

LB – Ainda estou avaliando. A família me cobra muito. Para a gente cumprir tudo isso e agregar a gente acaba sendo ausente em algumas áreas. Como diz o meu marido: “A gente era muito mais tranquilo (risos) antes de você entrar para a política”. Ele me apoia, mas preferia que eu não estivesse na política. É um trabalho maravilhoso.

Por Cid Barboza/Itatiba Hoje – Foto: Cid Barboza