CidadeSaúde

“Precisamos voltar a vacinar nossas crianças”, alerta o pediatra Getúlio Dutra Eleutério

Quase 50% das crianças de Itatiba ficaram sem a vacina contra a gripe em 2025. A baixa procura resultou em mais casos graves e internações. Com a chegada da primavera e das chuvas, a dengue – que teve a pior epidemia no Brasil em 2024 – deve avançar. A vacina contra a dengue está disponível na rede pública para crianças de 10 a 14 anos e, na rede privada, a partir dos 4 anos até idosos

A queda na procura por vacinas no Brasil é um fenômeno preocupante e vem deixando marcas profundas na saúde da população. Para o pediatra Getúlio Dutra Eleutério, a origem está clara: “Infelizmente, a gente está tendo uma baixa adesão e menor cobertura vacinal no Brasil, principalmente após a pandemia. Isso está muito relacionado à politização da vacina contra a Covid, que consequentemente influenciou em várias outras vacinas, como contra a influenza (vacina da gripe), tríplice bacteriana, poliomielite e sarampo, diminuindo significativamente a adesão, principalmente nas crianças e no público prioritário como um todo.”

Os reflexos dentro dos hospitais assustam. O médico, que atua em pronto-socorros de Itatiba e região, foi direto: “Antes, raramente víamos crianças graves internadas por influenza. Neste inverno, houve um aumento muito significativo de internações em UTI e até óbitos. Todas as crianças graves ou que morreram por influenza não estavam vacinadas.”

Getúlio lembra que o Brasil esteve, por muitos anos, entre os melhores na adesão à vacinação mundial, chegando a 91%: “Em 2023, houve um retrocesso significativo. Um levantamento feito pela Unicef e OMS traz o país para o ranking dos menos vacinados no mundo. Em 2024, o Brasil ocupava a 17ª posição. E isso tem afetado muito as crianças em diversas outras doenças.”

Vacinação de crianças contra a dengue já está disponível na rede pública de saúde de Itatiba – Foto: Arquivo/PMI

Baixa procura preocupa autoridades em Itatiba

O cenário se reflete nos dados locais. De acordo com a enfermeira Cláudia Santos Silva, responsável pela Central de Imunização da Secretaria Municipal de Saúde de Itatiba, apesar do esforço para ampliar a cobertura, a adesão ainda está longe do ideal: “Neste ano, até o momento, foram aplicadas 35.027 doses da vacina contra Influenza em Itatiba. A cobertura vacinal está em 51,49% para crianças, 52,64% para gestantes e 53,96% dos idosos.”

Claúdia revela que houve melhora em relação a 2024, quando apenas 36% das crianças, 25,8% das gestantes e 42% dos idosos haviam recebido a dose no mesmo período. Mas a resistência à vacinação, alimentada por fake news, segue sendo um obstáculo: “Ainda há muitas pessoas com receio, o que tentamos combater diariamente”, explica Cláudia, ao destacar que a vacina da gripe está sendo oferecida dentro das unidades públicas de saúde e também fora. “Desde o início da campanha, intensificamos a oferta nas praças, eventos públicos, fizemos parceria com empresas, além de divulgação na imprensa, comunicados nas unidades, busca ativa em salas de espera, entre outras ações.”

Pediatra Getúlio Dutra Eleutério afirma que vacinas são seguras e têm eficácia comprovada – Foto: Acervo pessoal

Primavera, chuvas e o risco da dengue

Com o clima esquentando e as chuvas de setembro se aproximando, outro alerta ganha força: a dengue. Itatiba sofreu com a maior epidemia da história do Brasil em 2024: foram 1.396 casos na cidade apenas no primeiro trimestre, contra apenas 65 em todo o ano de 2023. Segundo Isabela Buckov, responsável pelo Setor de Combate à Dengue do Departamento de Vigilâncias em Saúde de Itatiba, a prevenção depende da colaboração direta da população: “É importante não deixar acumular água, onde o mosquito transmissor pode se reproduzir. Os agentes de saúde fazem visitas rápidas, mas eficazes, e é fundamental que as famílias recebam essas equipes.”

Isabela informa que o Setor de Combate à Dengue está monitorando e promovendo ações de intensificação desde já, como a Avaliação de Densidade Larvária (ADL) realizada neste mês de agosto. “Outra será realizada em outubro, para a pesquisa de larvas após as esperadas chuvas de setembro. Reforçamos também a importância de a população seguir contribuindo ao vigiar o lar para que não haja acúmulo de água em potes, pneus, garrafas, pratinhos de plantas, a fim de evitar locais onde o mosquito possa se reproduzir”, reforça.

Denuncie as suspeitas de focos da dengue

Denúncias de suspeita de focos devem ser feitas pelos telefones: (11) 4538-8596 e 4538-6239, e também pelo Fala Cidadão, serviço municipal disponível no site da Prefeitura de Itatiba: www.itatiba.sp.gov.br.

Vacina disponível

Importante alertar que, após uma baixa nos estoques em junho e julho, a vacina contra a dengue já está novamente disponível em todas as unidades públicas de saúde, de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h, para o público-alvo preconizado pelo Ministério da Saúde: crianças e adolescentes de 10 a 14 anos de idade. Na rede particular, a vacina contra a dengue, QDenga, está disponível dos 4 aos 60 anos.

Informação correta salva vidas

Para o pediatra Getúlio D. Eleutério, não há mais espaço para dúvidas: “Precisamos voltar a vacinar nossas crianças. Só a vacina protege e pode prevenir complicações graves. Fake news colocam vidas em risco. O que salvou a humanidade foi antibiótico e vacinas.”

O médico vai além: “Os estudos são feitos, a eficácia é comprovada e as vacinas são seguras. Os pais precisam se conscientizar cada vez mais em relação a isso. Precisamos alcançar índices melhores de vacinação. E, principalmente, contra as doenças virais, pois a maioria só existe a vacina como prevenção, para proteger as crianças e também os adultos em geral. Informações sem veracidade são difundidas de forma irresponsável e sem embasamento científico algum, fazendo com que muitas doenças fiquem sem cobertura, sem proteção, voltando aí muitas doenças que já estavam erradicadas.”

Por Camila de Magalhães/Itatiba Hoje – Fotos: Arquivo/PMI e Acervo pessoal