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Do interior de São Paulo à cordilheira do Himalaia, Pedro Hauck enfrenta riscos extremos ao escalar o Everest

A mais de 8 mil metros de altitude, onde o oxigênio é rarefeito e o frio pode ser mortal, o itatibense Pedro Hauck vive, neste momento, um dos maiores desafios de sua vida: escalar o Monte Everest, a montanha mais alta do planeta, com 8.848 metros acima do nível do mar.

Foto: Divulgação

Guia de montanhas profissional, geógrafo de formação e montanhista com quase três décadas de experiência, Pedro integra uma expedição brasileira ao Himalaia liderada por ninguém menos que Waldemar Niclevicz — o primeiro brasileiro a alcançar o cume do Everest, em 1995, e uma lenda do montanhismo nacional.

“Como montanhista, escalar o Everest sempre é um sonho, porém transformar este sonho em realidade é um desafio grande”, contou Pedro em entrevista exclusiva ao Itatiba Hoje, direto do acampamento base no Nepal.

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Um sonho com custo elevado

Pedro tem 43 anos, mora atualmente em Curitiba e é cofundador da empresa Soul Outdoor, especializada em expedições de montanhismo. Ao lado da esposa e também montanhista, Maria Tereza Ulbrich, ele vive daquilo que ama: escalar montanhas.

Mas transformar o sonho do Everest em realidade exigiu muito mais que preparo físico. “O Everest é uma montanha cara. Gasta-se em média 55 mil dólares para escalá-la. E aí vem uma contradição: eu, como guia de montanha, não tenho essa renda”, explicou. “Minhas chances de chegar ao topo do mundo seriam uma de duas: ou como guia, ou com patrocínio.”

Essa oportunidade finalmente se concretizou após um reencontro com Niclevicz em 2024, durante um evento de montanhismo no Paraná. “Ele foi direto: vamos escalar o Everest no ano que vem? Minha resposta foi mais direta ainda: é claro que sim!”, lembrou Pedro, animado. “Ele tinha um plano e acreditava que conseguiríamos apoio financeiro. E conseguimos.”

Com o apoio de três clientes – Pedro Cirino, Freddy Rangel e Samuel Figueiredo – a parte financeira foi resolvida. A expedição partiu para o Nepal no fim de março de 2025 e atualmente realiza as últimas etapas de aclimatação antes da tentativa de cume.

Foto: Divulgação

Escalar para viver, viver para escalar

Mais do que se preparar fisicamente, Pedro vive em constante atividade. Nos primeiros três meses de 2025, ele passou por uma verdadeira maratona de montanhas nos Andes. “Guiei o Aconcágua duas vezes, o Ojos del Salado duas vezes, e ainda escalei mais dois 6 mil andinos por conta própria. Isso tudo antes de embarcar para o Nepal”, contou.

Em números, Pedro já atingiu 64 cumes diferentes acima dos 6 mil metros nos Andes, o que o coloca como o segundo montanhista do mundo com mais cumes distintos nessa faixa de altitude.

“Até agora, em 2025, só dormi três noites na minha cama. Vivo disso. Minha preparação física é escalar montanhas.”, resume. Hoje, ele e o grupo estão em processo de aclimatação no Himalaia, subindo e descendo lentamente para adaptar o corpo ao ar rarefeito antes de partir para o ataque ao cume.

Everest: altitude extrema, riscos extremos

Os perigos da escalada não são poucos — e Pedro os conhece bem. “O Everest não é um passeio no parque. Tem avalanches, vento, temperaturas extremas e risco real de morte”, alerta.

A altitude, por si só, é um desafio enorme. “Estamos quase na mesma altitude de um jumbo em voo de cruzeiro. Mesmo atletas experientes podem sofrer com o mal agudo da montanha, edema pulmonar ou cerebral.”

Até hoje, mais de 340 pessoas morreram tentando escalar o Everest. Mas os riscos não impedem Pedro de seguir firme. A expedição adotou uma estratégia diferente: chegar mais cedo à montanha e aproveitar as primeiras janelas de clima favorável, antes que o “engarrafamento” de alpinistas comece.

Foto: Divulgação

Uma bandeira pela natureza

A jornada de Pedro não é apenas física. Ao alcançar o cume, ele também pretende carregar uma mensagem importante: a da preservação ambiental.

“Estamos levando a bandeira da restauração ecológica”, explica. O grupo divulga o trabalho da Reserva Natural do Alpinista, uma RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) mantida por Niclevicz, onde uma antiga fazenda está sendo reflorestada com araucárias.

“É possível desenvolver atividades econômicas reduzindo impactos ambientais. É isso que o Waldemar está mostrando, e que meu pai também faz no sítio dele, em Itatiba”, destaca Pedro, que estudou justamente as araucárias em seu mestrado na Universidade Federal do Paraná.

De Itatiba para o mundo

Pedro cresceu em Itatiba e começou a escalar perto de casa. “Minhas primeiras montanhas foram a Pedra Grande, em Atibaia, as montanhas de Monte Verde e o Pico das Agulhas Negras”, lembra. “Comecei com pouco dinheiro e muita vontade.”

Hoje, com quase 30 anos de experiência e mais de 110 cumes acima dos 6 mil metros, ele ainda segue um conselho simples: não ter pressa.

“Para quem sonha com grandes aventuras, eu digo: vá devagar, degrau por degrau. Comece pelas montanhas mais próximas. Tenha constância. Se tudo der certo, o Everest será meu 115º cume acima dos 6 mil metros — e isso levou quase três décadas para acontecer.”

Acompanhe essa conquista

A expedição segue nas próximas semanas rumo ao cume do Everest. Se o tempo e as condições permitirem, o grupo deve tentar o ataque final ainda em maio. Enquanto isso, os itatibenses acompanham à distância — mas de coração junto — essa escalada histórica de um conterrâneo que saiu do interior para viver nas alturas. Literalmente.

Por Lívia Martins/Itatiba Hoje – Fotos: Divulgação